Quanto vale um dia na aldeia?
Não sei quanto valerá, nem pretendo que façam licitações a algo que, com certeza, não terá preço.
Enquanto uns se mantinham encafuados em casa, outros não dispensavam as filas de trânsito que era preciso vencer para sentir a areia nos pés.
Ontem, Domingo, e naquilo que a mim e aos meus diz respeito, optámos por passar um dia na aldeia. Saímos de casa bem cedo para vencer os mais de 150 quilómetros que tínhamos pela frente. No fim da viagem estaria à nossa espera a bisavó materna que já não víamos há mais de cinco meses.
A bisavó foi o grande motivo que nos fez subir até ao concelho de Ferreira do Zêzere. Com ela vieram as ovelhas no prado, as cerejeiras em flor, o vinho tinto das uvas que ajudámos a pisar, o almoço com a carne de porco grelhada, de porco criado em casa, alimentado à mão, de mãos calejadas da vida, da vida de alguém a quem carinhosamente chamamos “Gêna”… Avó Gêna.
Os graúdos deliciaram-se com os miúdos que corriam no meio das flores, assustando os gatos, as ovelhas e os borreguinhos que se haviam mantido, até àquele momento, na sua labuta diária.

Os cheiros das flores, dos pinheiros, dos animais; os sons do vento que cortava as copas das árvores, do chilrear dos pássaros, das risadas das crianças que sujavam os pés na terra…
Lá em baixo, quase tão longe quanto a vista possa alcançar, vislumbrava-se o Zêzere. A água, depois do Bêco e pouco antes de contornar Dornes, tem ali uma tonalidade verde, reflexo das encostas repletas de pinheiros que se vergam à sua passagem. É ali, no Verão, naquela água que corre nas veias do Zêzere, que me refresco, antes de, um pouco mais abaixo, ela ser sugada para saciar a sede daqueles que dela precisam.
Ao fim do dia, pouco antes do “adeus” e da promessa de voltarmos em breve, a Avó Gêna chegou-se ao pé de nós e disse: “- Obrigado por terem vindo.”
Haverá valor que pague um dia assim?





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